O Celulóide

História, o que é, evolução técnina, curiosidades e uma entrevista histórica sobre os primórdios do cinema em Almeirim,  ao Dr. António Cláudio.

1. O CELULÓIDE

1.2 – Breve resenha histórica

clip_image002 A capacidade inventiva do homem não tem limites. Por essa razão não descansou enquanto não descobriu uma forma de registar as imagens que o envolvem.

A ideia não é nova, pois, muito antes da invenção da fotografia, que surge na primeira metade do sec. XIX, com as experiências de Louis Jacques Dagerre, porventura o único que procurava, por volta de 1800, um procedimento capaz de fixar imagens dentro de uma câmara, existiam outros meios de fixar imagens, lembremo-nos da camera obscura, muito utilizada pelos pintores da idade de ouro do século XVII holandês. Será contudo, por volta de 1839, que Dagerre conseguirá fixar imagens em placas de vidro e vir ao encontro do espírito positivista da época na procura de imagens representativas de uma burguesia fortalecida economicamente. O governo francês da época compra os direitos autorais, facultando assim a possibilidade de todos poderem usar a invenção, com excepção da Inglaterra.

Passou a haver um novo termo técnico para definir este tipo de suporte; daguerreótipos, em justa homenagem a Louis Daguerre.

Tecnicamente os daguerriótipos são positivos directos, quer dizer, exemplares únicos, a branco e preto, geralmente com imagem invertida, com formatos que oscilavam entre 54 x 72 mm e 162 x 216 mm.

Deste processo, arcaico e complexo, havia que se sensibilizar uma placa de cobre (argentada) com vapores de iodo, que era exposta numa câmara escura, após a qual seria revelada por acção de vapores de mercúrio, sendo fixada à placa de vidro com uma solução de tiosulfato sódico. Faziam-se essencialmente retratos mas também paisagens e naturezas mortas às quais os “coloristas” davam realces artísticos através de coloração suave. Como curiosidade apenas, entre 1840 e 1860, sobretudo em Paris terão aparecido uns 5000 daguerreótipos de conteúdo erótico, dos quais, aproximadamente 700 são conhecidos mundialmente.

Estava em marcha uma revolução pela captação da imagem, por enquanto ainda estática.

clip_image004Em 1846, Christian Friedrich Schömbeim obteve o nitrato de celulose, um material quimicamente instável que podia explodir espontaneamente. Apesar da instabilidade do composto, percebeu-se rapidamente o alcance que poderia ter e da urgência de patentear a fórmula. Eliminando as impurezas dos componentes, foram capazes de controlar a taxa de reacção.

Em 1854, Alexander Parkes, à procura de um material que imitasse as qualidades do marfim para produzir bolas de bilhar (6), acrescentou à fórmula anterior piroxilina cânfora e obteve um material mais estável e mais forte.

– Será atribuído ao empresário John Wesley Hyatt a invenção da celulóide, surgindo em 1869 como o primeiro plástico comerciável, que mais tarde servirá de base à película cinematográfica.

Em 1872, Hyatt, já produzia industrialmente este material sob o nome comercial de celulóide.

Benett, 1878, utiliza pela primeira vez, o celulóide na fabricação de película fotográfica e estabelece alguns dos princípios técnicos da revelação.

Para podermos cruzar a história comum da fotografia e do cinema, devemos recuar de novo no tempo.

Um pouco de história

Em 1887, o norte-americano Thomas Alva Edison inventa o filme perfurado. E, em 1890, roda uma série de pequenos filmes no seu estúdio, o Black Maria, o primeiro da história do cinema. Esses filmes não são projetados na tela, mas no interior de uma máquina, o cinetoscópio – (igualmente inventado por Edison um ano depois). Mas, tem um inconveniente, as imagens só podem ser vistas por um espectador de cada vez.

Thomas Edison começou a trabalhar num aparelho para fazer com que as fotografias parecessem mover-se e só obteve sucesso dois anos depois, quando um norte-americano, Hannibal Goodwin, desenvolveu um filme à base de celulóide transparente que era resistente, mas flexível. Esta base podia ser coberta por uma película de produtos químicos sensíveis à luz. Podia-se tirar uma série de fotos com esse filme (película), que se movia rapidamente dentro da câmara. George Eastman, um pioneiro no fabrico de equipamento fotográfico, produziu a película (filme).

Utilizando o filme de Eastman, Edison e seu assistente William Dickson inventaram o cinetoscópio. Era uma espécie de gabinete onde 15 metros de filme rodavam em carretéis; a pessoa olhava através de um visor para o interior do gabinete e rodando uma manivela podia ver as fotos em

clip_image006movimento.  O cinetoscópio, era quase cinema. Era como que uma caixa que tinha dentro um filme com fotografias em série.

Um dos personagens mais criativos do seu tempo foi Tomas Edison, a ele se deve a invenção do fonógrafo e da lâmpada eléctrica. De espírito inquieto e aventureiro, procurou encontrar, a todo o custo, um aparelho que possibilitasse ligar som e movimento.

1.3 – O que é afinal o Celulóide? (físicas e técnicas)

Celulóide é o nome de uma classe de compostos criados a partir da nitrocelulose e de cânfora, a que se adicionam corantes e outros agentes. Os celulóides são considerados os primei

ros materiais termoplásticos. Em 1862, o inglês Alexander Parkes registrou a Parkesina, primeiro celulóide e primeiro plástico fabricado.

O termo celulóide só passou a ser utilizado em 1870. Moldado com facilidade, o celulóide foi produzido originalmente como substituição para o marfim.

Fórmula

A fórmula típica do celulclip_image008óide pode conter 70-80 partes de nitrocelulose, nitratos a 11% de nitrogénio, 30 partes de cânfora, de 0 a 14 partes de corantes, 1 a 5 partes de álcool etílico, além de estabilizadores e outros agentes para aumentar a estabilidade e reduzir a inflamação.

Um de seus usos mais conhecidos é na indústria fotográfica e cinematográfica, na confecção das chamadas películas ou filmes. Historicamente, o primeiro celulóide utilizado em filmes foi o nitrato de celulose. No entando, como este sofria combustão espontânea, a partir dos anos 1950 foi substituído pelo triacetato de celulose, menos inflamável, constituindo assim o chamado “filme de segurança” (“safety film” em inglês).

Por essa razão, milhares de pessoas em todo o mundo podem hoje desfrutar de filmes com mais de 100 anos..

Graças à invenção do celulóide, uma película de material flexível, transparente, filmes como o Titanic, Homem Aranha ou Star Wars, nunca teriam tido o êxito que obtiveram nos nossos dias.

A ciência do filme do cinema moderno envolve uma serie de agentes químicos ou derivados sintéticos e polímeros. Esses derivados são

formas de polímero de celulose, encontrada em madeira, algodão, papel e que tenham sido alterados quimicamente. Filmes fotográficos ou filmes de cinema consiste de uma celulose transparente, poliéster ou outros plásticos de base revestida com emulsão de nitrato de prata, sensíveis, contendo sais-luz (coladas pela gelatina) com vários cristais que determina a resolução do filme. Processos químicos, comummente conhecido coclip_image010mo revelação de filmes, são aplicados para o filme para criar uma imagem visível.

Nitrato de celulose, ou celulóide, foi o primeiro tipo de base do filme usado para gravar imagens em movimento. Celulóide é criado a partir de nitro celulose, cânfora, tinturas, álcool etílico, estabilizadores e outros agentes. Facilmente moldado, de nitrato de celulose e altamente inflamável e decomponível. Celulóide foi substituído por acetato de celulose, que e feito de celulose e acido acético, e é altamente resistente ao calor, produtos químicos e chamas. Hoje, os filmes de poliéster (que compreende fibras ou polímeros de plástico) vêm em grande parte substituindo o celulóide.

A descoberta do celulóide ocorreu por acaso em 1868, quando John Wesley Hyatt acidentalmente derramou uma garrafa de colódio, enquanto procura um substituto para o marfim usado em bolas de bilhar. clip_image012Hyatt percebeu que, quando seco, o material se transformou num filme resistente, flexível. Embora não tenha sido forte o suficiente para ser usado como uma bola de bilhar, que tinha muitas outras capacidades. Por exemplo, quando combinado com o calor e pressão, que poderia facilmente ser moldado em varias formas.

Em 1885, a Eastman Kodak desenvolveu o material para o primeiro filme fotográfico flexível. Ate o inicio de 1900, o filme tornou-se num mercado popular para o celulóide, que rapidamente se tornou num padrão da industria. Sua popularidade, no entanto, seria de curta duração.

A partir do ano de 1920 até ao inicio do ano de 1950, o acetato de celulose ou película de segurança de queima lenta (também conhecida como película de segurança base, base de acetato de filme, e filme base de poliéster), vieram substituir o filme baseado em nitrato, filme de acetato, no entanto, causou uma série de problemas. Deteriorava-se rapidamente quando exposto ao oxigénio, libertando o acido acético. Esta é também conhecido como a “síndrome do vinagre”, por causa do forte cheiro de vinagre emitido quando o filme se deteriorava.

Desde a déclip_image014cada de 1980, o filme de poliéster (as vezes referidos no comercio como Kodak) tornou-se mais comum, a sua elasticidade e resistência ao rasgo torna muito popular entre os cineastas.

Como resultado, a preservação do cinema mudo tem sido uma prioridade elevada entre os historiadores de cinema.

O problema da deterioração dos filmes não se limita apenas aos filmes feitos sobre o nitrato de celulose, a película de segurança também podem sucumbir a “síndrome do vinagre”. Da mesma forma, a cor dos filmes, especialmente aqueles feitos sem cor Tecnicolor, os filmes estão também num processo de deterioração a ritmo muito rápido.

Apesar dos filmes coloridos estarem armazenados em baixas temperaturas pode inibir a desvanecer-se também, mas pode aumentar os efeitos da “síndrome do vinagre”.

Arquivados em temperaturas contrárias, pode aumentar a descoloração.

Na maioria dos casos, quando um filme é escolhido para preservação ou restauração, novas copias são criadas a partir do negativo original.

Hoje, um crescente número de filmes de celulóide estão sendo convertidos para imagens digitais, mas às vezes isso pode resultar numa perda de qualidade de imagem. Como o desenvolvimento da tecnologia digital aumenta progressivamente, a resolução de filmes e transferidos digitalmente.

Ao se considerar as necessidades de armazenamento, a duração de tempo que um filme deve ser armazenado, deve ser cuidadosamente considerada. Alem disso, a película de filme precisa ser protegido da água, mofo, químicos e danos físicos.

Nitrato e filmes de acetato pode encolher e tornar-se frágil devido a perda de humidades solventes ou plastificantes. Só filmes de segurança tem uma esperança de vida prolongada 100 anos de acetato e pelo menos 500 anos para a película de poliéster.

Imagens gravadas em filme triacetato, diacetato ou tereftalato de polietileno (PET) também são muito duráveis.

clip_image018Um filme é considerado seguro se se inflama com muita dificuldade, queima-se lentamente e se o conteúdo de nitrogénio no caso de filmes não exceda um certo peso.

Finalmente, o objectivo de preservar os filmes e entender o seu uso para as gerações vindouras mais tempo possível, para que possam usufruir das mesmas imagens de alta qualidade de imagem e som ao cinema moderno.

Como curiosidade: sobre filme fotográfico

Os filmes fotográficos são geralmente divididos em três formatos: pequeno, médio e grande. O tamanho do filme mais comum entre os filmes de pequeno formato é o 35 mm (ou formato 135). No médio formato o filme mais habitual é o 120 ou o 220mm, os negativos desta classe podem ser de 4,5×6 cm 6×6 cm ou 6×7 cm. No caso do grande formato o mais pequeno tamanho de

negativo é o conhecido por 4″x5″, seguido do 5″x7″, 8″x10″ e mesmo o 16″x20″. No caso dos grandes formatos, os filmes são constituídos por folhas individuais, sendo que não existem rolos de várias fotografias como nos outros formatos.

filme fotográfico. In Diciopédia X [DVD-ROM]. Porto : Porto Editora, 2006. ISBN: 978-972-0-65262-1

Bitolas para filme cinematográfico

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Achegas sobre o tema

Em meados do século XIX começou a desenvolver-se uma série de materiais sintéticos que tentavam imitar outras propriedades obtidas naturalmente, como a seda, marfim, carapaça de tartaruga, madeira, etc. Digamos que, empiricamente descobriram como sintetizá-los, pois aqueles que se dedicaram à pesquisa não eram realmente especialistas em química, apenas curiosos da matéria.

O filme (película) é um dos materiais que foi obtido por tentativa e erro, é obtida a partir da mononitración, pela adição de celulose e cânfora como plastificante. O polímero foi inventado num esforço para combinar as propriedades do marfim usado para bolas de bilhar.

Embora tenha sido amplamente aceite no mercado para esse uso, teve muitas outras aplicações importantes. Como material inovador atingiu o seu pico quando o filme se consolidou em todo o mundo, como sendo um material flexível e transparente, perfeitamente adequado às necessidades dos criadores.

No entanto, sua alta inflamabilidade (facilmente entrava em combustão) deu-lhe uma má reputação e os acidentes aconteciam com frequência devido à instabilidade do nitrato de celulose. Assim, o seu uso foi substituído pelo acetato de celulose que combinaram as propriedades de celulóide.

Embora o uso desse polímero seja hoje, quase inexistente, podemos encontrar material que constituem valioso património cultural, residindo aí a importância de aprender mais sobre as suas características e da susceptibilidade à deterioração e aos necessários métodos de conservação.

É o primeiro plástico artificial feito com um polímero modificado pelo uso de aditivos e é mais conhecido.

clip_image0211.3 – Cinema; o celulóide como suporte dos sonhos

Breve viagem à História do Cinema

Não podemos falar da película de celulóide sem falar do Cinema, razão principal para a orientação das pesquisas técnicas e dos aperfeiçoamentos deste suporte.

Mudo vs Sonoro – Os princípios técnicos do cinema são simples: por um lado, uma série de imagens é fixada numa película fotossensível; por outro, essas imagens são projectadas por um feixe de luz sobre uma superfície plana, a tal velocidade de sucessão que as figuras parecem estar a movimentar-se em contínuo. Este efeito baseia-se no facto de o olho reter as imagens durante uma certa porção de tempo após o desaparecimento da coisa vista. A técnica do cinema surgiu no século XIX, em parte associada ao desenvolvimento da fotografia. Assim, inventores como Louis Daguerre (com os seus daguerreótipos), Coleman Sellers e Étienne Marey podem-lhe ser associados. Contudo, foram os franceses Louis e Auguste Lumière que deram o passo fundamental, com a invenção do cinematógrafo, dado a conhecer ao público em 1895.

O cinema depressa adquiriu popularidade na Europa e na América do Norte, como fonte de entretenimento, veículo ideológico e documentário. O introdutor da nova técnica no nosso país foi Aurélio da Paz dos Reis, logo no ano a seguir à inauguração dos irmãos Lumière. Ao longo do tempo, os

desenvolvimentos técnicos sucederam-se e levaram a grandes modificações dos estilos predominantes. A possibilidade de sincronização da imagem com o som teve consequências aos mais diversos níveis, desde logo no trabalho dos actores (que, ao que parece, também não simpatizaram muito com esta nova modalidade que os fazia representar e falar ao mesmo tempo). Na verdade, muitas das estrelas do cinema mudo foram incapazes de se adaptar e viram as suas carreiras terminadas com o advento do sonoro. O filme que

marcou esta viragem foi The Jazz Singer (O Cantor de Jazz, 1927, com Al Johnson).

clip_image023A introdução da cor e de formatos mais largos, depois, e o desenvolvimento dos efeitos especiais, mais tarde ainda, foram outros progressos que acarretaram mudanças radicais na estética das produções. Por outro lado, os géneros foram-se definindo: tornaram-se reconhecíveis diferentes tradições cinematográficas, com características e convenções mais ou menos estáveis,

como é o caso das comédias amorosas, dos filmes de guerra, dos westerns, dos filmes de espionagem, dos policiais e histórias de tribunal, da ficção científica, da animação, dos musicais, etc. Ao mesmo tempo, ainda, surgem as escolas ou correntes (como o Expressionismo e o Neo-Realismo, que ligam o cinema aos movimentos de outras artes) e estabelecem-se perfis nacionais para as produções (há um estilo americano, um britânico, um indiano, etc., bem distintos dentro de certos géneros). Pela sua ampla difusão internacional e social (é igualmente apreciado por pessoas de todas as classes), o cinema é considerado pelos estudiosos como um dos componentes distintivos da cultura do nosso tempo.

Na verdade, não apenas algumas das suas figuras são conhecidas de várias gerações, em vários países e grupos sociais, como também muitas das ideias feitas sobre o heroísmo, a justiça, a investigação policial, certas épocas e personalidades históricas, certos sentimentos, etc, decorrem de obras cinematográficas ou são por elas transmitidas às massas. A importância do cinema é tanto mais significativa quanto ele marcou indelevelmente a programação televisiva, quer porque os filmes também são transmitidos na televisão, quer porque esta adoptou, na sua produção própria, muitos elementos dos vários géneros cinematográficos. Como forma de arte e grande indústria que é, o cinema dispõe de acontecimentos organizados para sua promoção, bem como de galardões que são atribuídos às obras e personalidades de maior mérito. Entre os primeiros destacam-se o Festival de Cannes, o Festival de Veneza e, entre nós, o Fantasporto. Quanto a prémios, os mais importantes são os Óscares, atribuídos anualmente desde 1927, objectivamente para premiar o trabalho das várias áreas de produção que tornam os filmes possíveis, do guarda-roupa à música, dos produtores aos efeitos especiais, do melhor actor à melhor fotografia, etc.

Mudo vs sonoro.

O cinema não foi sempre sonoro. Na verdade, os primeiros filmes, apesar dos actores falarem, não tinham som e eram acompanhados nos cinemas por músicos que tocavam ao vivo. Poucas pessoas sabem que os filmes mudos que hoje podemos ver na televisão com uma velocidade mais rápida

clip_image025que o normal não eram vistos assim no tempo em que eram passados nos cinemas, onde nessa altura tinham uma velocidade perfeitamente normal. Ou seja, os filmes mudos passavam nas câmaras a uma velocidade de dezasseis fotogramas por segundo e os actores e a vida, em geral, passava no ecrã a uma velocidade normal. Com a introdução do sonoro, a velocidade dos filmes aumentou para 24 fotogramas por segundo e os filmes mudos, ao passarem nas máquinas projectoras de som síncrono, eram obrigadas a ter uma velocidade cinquenta por cento mais rápida. O resultado é aquela correria desajeitada que nos faz sorrir mas que, para muitos de nós, está indubitavelmente ligada ao cinema

mudo, já que nunca o vimos de outra forma. A introdução do sonoro veio não só trazer uma nova dimensão à Sétima Arte mas também revolucionar completamente os bastidores do cinema. Onde antes assistentes e técnicos podiam falar à vontade e também os actores tinham uma grande liberdade de acção em termos de movimentação física e não tinham que decorar diálogos porque estes eram escritos no filme, agora o silêncio tinha de imperar em toda a equipa, os actores tinham de falar para microfones escondidos, por exemplo, em vasos, limitando-lhes o movimento e tinham de decorar os diálogos. O novo elemento da equipa, o técnico de som, tornou-se no início como o ditador de novas regras incómodas, que foram desaparecendo à medida que esta nova técnica evoluiu e passou a libertar a equipa e o próprio realizador, que, em termos criativos, podia explorar as novas possibilidades dos diálogos, os efeitos sonoros e a música. A partir de então, a música não esteve mais dependente do improviso dos músicos que tocavam nos cinemas locais.

(cinema. In Diciopédia X [DVD-ROM]. Porto : Porto Editora, 2006. ISBN: 978-972-0-65262-1)

1.4 – Memórias do manuseamento das bobinas

O “Cinema Paraíso” já não existe. As emoções que provocava e a maneira como as provocava, não acontecerão jamais. Dos tempos em que o cinema era a única espécie igualitária de cultura, que chegava aos lugares mais improváveis, pouco ou nada resta. Dos últimos projeccionistas, os últimos guardiões das memórias do celulóide, dos que verdadeiramente acompanharam as mudanças do espectáculo mais popular, urge guardar a informação.

Com sentido de oportunidade, tentámos obter junto de um antigo bobinador do Cine-teatro de Almeirim, António Cláudio, licenciado em História, nascido em Almeirim e actualmente com 83 anos, alguma informação avulsa, que

clip_image029julgámos interessante recolher (gravado também em vídeo) e que nos apraz aqui registar.

Qual o filme que mais o marcou?

AC – Dos muitos, dos incontáveis filmes que vi, um, pela história e pelo contexto, (a II Guerra Mundial tinha acabado, não há muito tempo) que me

marcou foi precisamente o “Ladrões de Bicicletas”, de um drama passado em Itália do pós-guerra. Mas gosto também do “Cinema Paraíso”, identifico-me muito com o miúdo, com o Totó e com o seu fascínio pelo cinema e revejo ali muitas situações que também vivi no ambiente da sala.

Quais são as suas memórias mais antigas do cinema em Almeirim?

AC – O cinema em Almeirim, antes de ser no local que hoje conhecemos, foi num sítio que ainda existe e que era uma antiga oficina de serralharia, conhecida pela oficina dos Quinas. As memórias mais antigas do cinema em Almeirim vêm dessa altura e desse lugar, lembro-me de me sentarem ao colo para eu lhes ler as legendas. Naquela altura muito poucos sabiam ler e o cinema era um espectáculo muito popular.

Mais tarde passou-se para o Mercado Municipal, inaugurado em 1932. As exibições eram feitas dentro do espaço do mercado, para o qual se retiravam as bancas de madeira e se colocavam cadeiras. Ainda existe um pequeno nicho onde funcionava o quadro eléctrico, que tinha de ficar à mão para se apagarem as luzes do tecto. Houve também projecções feitas pelo Clube Juvenil, mas a lembrança mais engraçada, e já no novo cinema, o nosso cine-teatro (inaugurado em 1940).

Convém dizer que o edifício do cinema em Almeirim, no local que ocupa hoje, foi resultado de uns quantos senhores com posses, como o Prudêncio da Silva Santos, António Vinagre, etc, que o edificarem em 1940 e foi assim, depois de muitos anos fechado, até ser transferido para a Câmara, que o comprou aos muitos herdeiros em finais dos anos 90.

Que importância tem o cinema na sua vida? Que parte das suas memórias guarda? Fale-nos do “Ladrões de Bicicletas”

AC – Naquela altura, ninguém era indiferente ao cinema e eu também não era. Foram muitos anos da minha vida ligados ao cinema de Almeirim. Falo de uma altura em que havia lugares cativos, como hoje acontece no futebol, a pessoa tinha o seu lugar reservado, isto mesmo quando a fita não era das melhores. Naquele tempo as distribuidoras obrigavam a passar uns quantos filmes menores para podermos exibir um “Ben Hur”, por exemplo. O “Ladrões de Bicicletas”, marcou-me porque era um drama bem feito e real, também me lembro da importância de ter uma bicicleta em Almeirim. Nem todos a tinham, nessa altura muitos iam a pé para o trabalho. Continua a ser um bom filme.

Como era manusear o celulóide, o que mais se temia numa projecção?

AC – Os filmes chegavam cá através da camionagem, em bobinas, e era preciso preparar tudo antecipadamente. Como vinham em separado era preciso proceder à colagem da fita. Havia um pequeno espaço, onde hoje é a bilheteira, onde isso se passava. Tinhamos de ter cuidado com a fita, dar folga era importante para que, quando a máquina de projecção arrancasse não a partisse. O arco voltaico produzido entre os “carvões”, que emitia uma luz fortíssima, era o fundamental para levar a imagem até ao ecran, era a temperatura junto do filme que queimava a fita e obrigava a paragens forçadas.

Com boa vontade e muita prática quanto tempo demorava a recolocar a fita em andamento?

AC – Pouco tempo, alguns segundos. O tempo de voltar a por a fita…

Que episódio guarda como o mais divertido desses tempos ligado à projecção?

AC – Havia sempre alguém na sala que vivia aquilo intensamente, os homens era quem mais ia ao cinema e nalgumas fitas havia sempre algum ruído, lembro-me de alguém que “avisava o actor que o bandido estava escondido por ali” e outras coisas curiosas… foram tantas.

Nota final: Sentido agradecimento ao Dr. António Cláudio – figura incontornável da cultura e do folclore de Almeirim – que nos confiou algumas das suas memórias

1.5 – Conclusão

clip_image036A história do homem, das suas memórias e sonhos, deve muito a este pedaço de gelatina. Sem o celulóide teríamos mais dificuldade em nos afirmarmos como sociedade do conhecimento, em ilustrarmos as nossas emoções, em registarmos o inenarrável, em deixar registo para memória futura.

No final dos conflitos da Segunda Guerra Mundial, Eisenhower, comandante chefe das tropas aliadas, ao deparar-se com as imagens da verdade sobre a morte e o aviltamento perpetrado nos campos de concentração nazis, no norte da Europa, após a libertação, disse: registem o mais que puderem, filmem e fotografem, pois alguém poderá um dia dizer que estas atrocidades nunca aconteceram. De outro ponto de vista, na Alemanha nazi no dealbar do conflito, Leni Riefenstahl, dirigiria uma grandiosa encenação (“O Triunfo da Vontade”) para culto da personalidade, o cinema e o trompe l´oeil da montagem, tinham como objectivo aumentar a “fé” no Furher e credibilizar o regime. Seria outra forma de usar o cinema, aqui em sentidos opostos. “Hitler pretendia que fosse demonstrada a superioridade da raça ariana. Toda a preparação do filme foi desenhada para sublinhar esse objectivo e todos os recursos técnicos foram oferecidos para o registar…”. Os pressupostos extremistas estavam errados, contudo, o cinema, cumpriu a sua missão, atingiu os seus objectivos.

Sem este matéria, precursora dos plásticos, a História teria de ser contada de outra forma, com outros recursos, o que, naturalmente não seria a mesma coisa.

1.6 – Glossário

. cinetoscópio – instrumento de projecção interna de filmes, inventado por W. Dickson, em 1891, que trabalhava com Thomas Edison.

. celulóide – película gelatinosa, obtida a partir da nitrocelulose e de cânfora, considerado o primeiro material termoplástico

. bitola cinematográfica – propriedade física do filme, normalmente medida em milímetros. As dprincipais medidas usadas em cinema são as de 8, 16, 35 e 70mm. Houve outras, no tempo do cinema mudo, menos importantes como 9,5, 22, 56mm, etc.

. formato cinematográfico – é um conceito muita vezes confundido com o da bitola, esta faz parte da definição do formato. O formato cinematográfico inclui também as especificações de captura e projecção de imagem.

. arco voltaico – lâmpada de arco voltaico (inventada por volta de 1800) será utilizada até finais década de 80, um pouco por todo o mundo, na projecção de filmes.

1.7 – Bibliografia / Webgrafia (elementos de consulta)

www.lunaemaigos.com

http://unpedazodelunacuadrada.blogsop

1000 Nudes – A History of Erotic Photography from 1839-1939, Uwe Scheid Collection – Taschen

– Cinema. In Diciopédia X [DVD-ROM]. Porto : Porto Editora, 2006. ISBN: 978-972-0-65262-1

www.americanchemistrycouncil.com

Os Discentes ECM

Rui Bexiga

Fernando Veríssimo

Mário Cláudio

Santarém, Junho de 2010

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  1. #1 by alexandre on 17/10/2013 - 9:33 pm

    E quanto a aplicação do Celuloide como revestimento, largamente utilizado para o embelazamento de instrumentos musicais, o mais conhecido: Acordeon -onde encontrar este tipo de informacao ?

    • #2 by ruibexiga on 21/10/2013 - 8:53 pm

      Este trabalho teve como objeto de estudo o celulóide enquanto suporte media

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