Vida e obra de Maria Helena Vieira da Silva

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Introdução

O objecto de estudo escolhido para este trabalho é a vida e obra da pintora Franco-Portuguesa Maria Helena Vieira da Silva.

A escolha recaiu sobre a artista para satisfazer a minha curiosidade sobre ela. Tinha conhecimento da existência da sua fundação, da grande importância e reconhecimento que a sua obra tinha em França, sabendo que era considerada até um dos grandes nomes da pintura francesa do séc. XX.

Sabendo também que Vieira da Silva tinha nascido em Portugal, decidi ir à procura de entender o porquê do pouco conhecimento geral, sobre a artista, para mais numa altura em que parece finalmente que as artes começam a ter reconhecimento pelo valor real que elas representam para o país, como é o caso de Paula Rego na pintura, Marisa e Dulce Pontes na música, Joana Vasconcelos na escultura, Saramago na escrita, afinal não temos só Cristiano Ronaldo, Figo, Eusébio e Amália.

Para a elaboração realizei consultas na internet, consultei a Diciopédia, dois livros sobre a arte em Portugal da Verbo Juvenil e alguns livros escolares, estes para entender o valor dado á artista na educação dos alunos do 7º 8º e 9º anos. Um livro editado pelo DN para as comemorações do 30º aniversário do 25 de Abril com cartazes da época e para o qual Vieira da silva contribuiu com duas obras.

Neste trabalho tentei perceber também o modo como a artista foi atravessando um séc. XX rico em vários movimentos artísticos, que foram mudando o curso da arte no decorrer do século, e ainda também quais as áreas de trabalho em que a artista trabalhou, não se ficando apenas pela pintura.

Desenvolvimento 

Lisboa, 1908, dia de Santo António, o padroeiro da cidade. O diplomata Marcos Vieira da Silva é pai pela primeira vez. A sua mulher, Maria da Graça, deu à luz uma filha a quem é dado nome de Maria Helena Vieira da Silva.

clip_image002Instala-se com a sua mãe na casa do avô materno, homem de ideais republicanos, editor e director do jornal “O Século”. À serenidade da Suíça contrapõe-se a agitação que se vive em Portugal. Durante a sua infância vivida em Portugal, o estado do país estava em convulsões. A República tinha sido implantada em 1910 e não agradava a todos. Os movimentos políticos eram muitos. Portugal participa na 1ª Grande Guerra. Foi necessário recorrer a empréstimos estrangeiros e, enquanto isso, os trabalhadores reclamavam pelos seus direitos.

Maria Helena esteve protegida de tudo isto. Viveu na grande casa de seu avô. Um mundo de adultos. Não frequentou a escola tendo sido a sua educação  feita em casa. A própria mãe tomou isso a seu cargo. Aprendeu a ler, a escrever em português, francês e inglês. Não teve a companhia de outras crianças. Momentos houve em que sentiu tristeza, angústia, talvez a solidão, como ela própria o diria mais tarde:

“Era a única criança, numa casa muito grande, onde me perdia, onde havia muita coisa, muitos livros … não tinha amiguinhas, não ia à escola….” Vieira da Silva.

Quando a guerra rebentou, a mãe e a tia refugiaram-se na leitura do Apocalipse de que Maria Helena foi ouvinte. Foram imagens que lhe ficaram e que se haviam de juntar a outras, de outras guerras.

Aos 5 anos fez desenhos, aos 13 pintou a óleo. Dado o interesse da criança, a família apoiou a aprendizagem.

Emília Santos Braga será a primeira professora; aliás tinha já várias discípulas, às quais ensinava no seu estilo de pintora da escola académica. A pintura estará a cargo do Professor da Escola de Belas Artes, Armando Lucena. A música chegou a atraí-la, e chegou mesmo a  fazer composição. Não se considerava com talento para a música e  assim opto pela pintura.

Em 1916 a Mãe comprou uma casa em Sintra. Alguns Verões serão aí passados. A paisagem que a rodeava impressionava Maria Helena, questionando-a como representar tudo aquilo que via. Mais tarde haveria de querer mostrar Sintra ao marido, explicando-a com uma pintura.

Em 1925 estudou escultura na Escola de Belas Artes de Lisboa – criada em 1925, a Escola de Belas-Artes de Lisboa, chamada Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa (ESBAL) a partir de 1950, foi integrada na Universidade de Lisboa em 1992, adoptando a actual denominação. A Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa é actualmente uma instituição de ensino público universitário dedicada ao ensino e investigação nas áreas da Pintura, Escultura, Design de Equipamento, Design de Comunicação e Arte e Multimédia.

Outro dos interesses de Vieira da Silva era a anatomia; para melhor a aprender frequentou a disciplina na Escola de Medicina. Em 1926 muda-se para outra casa que a mãe adquirira em Lisboa. Mas esta cidade não lhe bastava:

“Já não podia progredir em Lisboa, a pintura que aí fazia não me satisfazia, não sabia o que fazer, nem como fazer”. Vieira da Silva.

Teve de procurar outros caminhos. Dois anos mais tarde (1928) partia para Paris. Paris era o grande centro. Os grandes movimentos artísticos do século XIX estavam ainda muito presentes, ao mesmo tempo que outros começavam a surgir. Era uma constante mutação. As inovações de Van Gogh, de Gauguin, de Cezanne influenciavam muitos artistas.

Depois da chegada a Paris Mãe e filha alojam-se no Medical Hotel, local onde estavam instalados ateliês de outros artistas, para além de um ringue de boxe. Em Paris Maria Helena visita os museus, conhece as obras de mestres. Um deles impressiona-a: Cezanne. Mais tarde há-de inspirar-se num seu quadro para fazer uma tela, Os jogadores de cartas.

Em Paris contacta com os seus contemporâneos, Picasso, Duchamp, Braque. Está atenta aos novos movimentos, mas não se insere em nenhum. São formas de prisão que não aceita. Frequenta a Grande Chaumière, em Montparnasse, Paris. Foi fundada em 1902 pela suíça Martha Stettler (1870-1946) e teve grande reputação no início do século XX. A academia oferecia cursos completos, mas também um serviço único de “Croquis à cinq minutes” que proporcionava, pelo pagamento de uma entrada por sessão, a possibilidade de fazer desenho de modelo nu. Podem-se citar entre os muitos artistas famosos que frequentaram esta academia: Modigliani, Giacometti, Mário Cesariny e Maluda..) e o atelier de Bourdelle ( artista que floresceu no final do século XIX e início do século XX).

Em Paris Vieira da silva descobre a cor, em Matisse, (pintor francês que nasceu em 1869 no Norte de França.. Familiarizou-se com os pintores do pós-impressionismo, particularmente com Cézanne. O pontilhismo inspirou-lhe cores mais fortes e arrojadas e dessa técnica surgiu o fauvismo) Pierre Bonnard (a sua pintura de interiores, de cores claras e luminosas, reflectia a capacidade de captar os pequenos detalhes, sob um efeito emocional), Paul Klee (pintor alemão nascido na Suíça – o seu estilo, fortemente individual, foi influenciado por várias tendências artísticas diferentes, incluindo o expressionismo, cubismo, e surrealismo. Klee era um desenhista nato que realizou experiências e, consequentemente, dominou a teoria das cores. Deu aulas na escola de arte e arquitectura Bauhaus), e uma toalha aos quadrados, que retém de um pormenor de um quadro deste último que haveria de entrar em ressonância com a sua própria pintura.

No ano de 1928 visita a Itália. Observa as obras dos grandes mestres italianos. Estuda a perspectiva e as formas. De tudo tira lições para melhor encontrar o seu próprio caminho. Quer que os seus quadros transmitam tudo o que a faz admirar – a forma, o som, o cheiro. Um dia ela própria o afirmará:

“Procuro pintar algo dos espaços, dos ritmos, dos movimentos das coisas” – Vieira da Silva.

clip_image005Nesse mesmo ano, pela primeira vez, participa numa exposição no Salon de Paris (por essa altura o valor económico de uma pintura podia ser avaliada olhando para o reverso do quadro). Se tivesse inscrito um “R”, o seu valor era inferior, pois indicava que o quadro tinha sido recusado pelo júri oficial do “Salon de Paris“. Era uma obra “reprovada”, ou seja, não tinha sido exposta na exposição anual do Salão e, portanto, tinha menos valor que as pinturas que tinham sido incluídas nela. Em 1930 casa com o pintor Arpad Szenes (Pintor de origem húngara, Arpad Szenes nasceu em 1897, em Budapeste, capital da Hungria. A partir de 1918 estudou na Academia de Budapeste, onde apresentou um especial interesse pela prática do desenho e da pintura. Procurou então conhecer e estudar as correntes artísticas de vanguarda no contexto europeu, abordando um largo espectro, desde as artes plásticas à música. Mais tarde viajou por vários países europeus, instalando-se em Paris em 1925. Dedicou-se à pintura e ao desenho, produzindo um conjunto de trabalhos figurativos de influência surrealista, dos quais se destaca o seu “Autoportrait à la pupille rouge”, realizado entre 1924 e 1925. Estas pinturas, as menos conhecidas no contexto da sua obra, apresentam signos associados a figuras muito coloridas e assumem frequentemente um carácter agressivo e irónico). O trabalho de Vieira da Silva surpreendeu-o:

“Quadros a tal ponto poéticos, simples, adultos, que fiquei profundamente impressionado” - Arpad Szenes.

Arpard incentiva-a na sua pintura, na procura do seu caminho. Para lhe facilitar o trabalho dá-lhe apoio moral e financeiro.

No mesmo ano visitam a Hungria e a Transilvânia. Da viagem, Maria Helena recolhe a imensidão do espaço, a paisagem que observa. É a contínua busca de uma forma de ver. Quando voltam instalam-se em Paris, na Villa das Camélias. Participam com outros pintores nas reuniões dos “Amis du Monde”. Aí discutem ideias, correntes, caminhos, divagações. A pintura de Vieira da Silva vai-se tornando um pouco mais abstracta.

Mais do que se vê, importa como é que se vê.

Em 1931 inicia-se a maturidade da sua obra partir do quadro Pont transbordeur, obra entretanto desaparecida. Nesta época são já patentes os elementos que hão-de definir a sua pesquisa estética: uma concepção do espaço anti-renascentista, ao não assumir o volume ou a perspectiva como um fim em si, e uma concepção da pintura como “escrita”, repetindo elementos, quadriláteros ou círculos, percorrendo clip_image008as tramas das famosas Bibliotecas e Florestas. O mundo exterior surge neste universo através da cor e da luz,  frequentemente a memória da luz e dos azulejos lisboetas habitará as suas telas. Durante esta época surgem as telas Os Baloiços* e Le quai de Marseille.

Em 1932, frequenta o curso na Academia Ranson, tendo sido aluna de Roger Bissiére, pintor pós-cubista. O casal não pára de trabalhar. Participam nalgumas exposições. Não tardará a primeira exposição individual em Paris. Será Jeanne Bucher, galerista, que a organiza em 1933, onde será também apresentado o livro infantil Ko et Ko, com ilustrações da pintora.

No ano seguinte Vieira da Silva vende o seu primeiro quadro, o comprador é o também pintor – Campigli.

Em 1935 Vieira da Silva adoece com icterícia. A doença ataca-a de forma violenta, obrigando-a a permanecer de cama. Não lhe é fácil estar parada. È desta época a tela O Quarto dos Azulejos*.

Para Vieirclip_image010a da Silva foi um longo período de descobrimento e reflexão: descobriu a importância da repetição, das perpectivas, das malhas e dos quadrados, usados nas suas obras, Atelier-Lisbonne e Composition (1936). Desta fase fazem parte também os notaveis, Le Jeu des Cartes* e La Machine Optique* (1937)

Em Portugal, António Pedro, o encenador e escritor, prepara a primeira exposição da artista.

Regressam a Portugal, a estadia prolonga-se por algum tempo o que permite a Vieira da Silva e Arpad Szenes realizarem uma exposição no seu ateliê.

De regresso a Paris volta a expor. Entretanto, por encomenda, faz cópias de Braque e de Matisse, para projectos de tapeçarias. O casal vai agora viver no Boulevard Saint-Jacques.

Ao mesmo tempo na Alemanha a ascensão de Hitler não pára. Os conflitos políticos sucedem-se. Os acordos não fazem cessar os problemas. Em 1939 a Alemanha invade a Polónia. É o limite. A França e Inglaterra declaram-lhe a guerra, começa a II Guerra Mundial, em consequência disso, regressa a Portugal, já que para o seu marido, judeu de origem húngara, a proximidade dos nazis  incomoda-o, naturalmente.

Em Lisboa prepara-se a Exposição do Mundo Português, enquanto a Europa está em guerra, o governo quer exibir o orgulho de um passado heróico e de um presente em paz. Muitos artistas são chamados a colaborar. Toda a cidade se prepara para os visitantes que espera ter. O Secretariado da Propaganda Nacional incentiva uma exposição de montras na Rua Garrett, em que a decoração será feita por diversos artistas. Entre eles, Vieira da Silva que faz “Luva com Flores” para a casa “Luva Verde”, “Sapatos de 7 léguas” para a “Sapataria Garrett, e ainda “Bailado de Tesouras” para a “Sheffield House”. Por esta última há-de receber um prémio. Pinta também por encomenda do Estado um quadro com destino à Exposição mas cuja encomenda será retirada.

Durante a estadia no país Vieira da Silva decide pedir que lhe seja devolvida a nacionalidade portuguesa, mas o governo português sabe que Vieira da silva é casada com um húngaro, e talvez por razões políticas (possibilidade de ser um comunista a tentar infiltrar-se) nega-lhe a nacionalidade. Arpad Szenes ainda coloca a hipótese de divórcio, mas Vieira da Silva não aceita, “casada está, casada fica”.

Parte então com o marido para o Brasil. Nesses tempos difíceis os quadros reflectem a angústia de um espaço povoado de criaturas fugazes e encurraladas. No Brasil não é ainda possível um artista viver dos quadros que pinta. Para além do mais, são artistas que não estão inseridos nas correntes figurativas tão em voga do Brasil. E depois há os críticos, que nada ajudam a que o público visite as exposições dos novos artistas.

Arpad Szenes decide dedicar-se ao retrato e mais tarde ao ensino artístico. Sempre vai dando para sobreviver. Vieira da Silva pinta cerâmica, azulejos. Tentam algumas exposições, mas a participação não é animadora. É tudo muito diferente da Europa, na sua vivência no Brasil fazem alguns amigos,  entre eles estão Murilo Mendes e Cecília Meireles. Desta última há-de fazer um retrato.

clip_image013Entretanto da Europa continuam a chegar as notícias da guerra. Vieira da Silva tem momentos de tristeza. Pensa no que se passa. Imagina o que não vê, lembra-se das outras guerras e das leituras do Apocalipse. Quando lhe são contadas as experiências vividas, Vieira da Silva decide pintar O Desastre* (1940). É a realidade da guerra.

Para atenuar o sofrimento, vem a encomenda de um painel de azulejos para Escola Agrícola do Distrito Federal do Rio de Janeiro. Quilómetro 44 é o título.

Entretanto, Ardenquin, pintor uruguaio, envia fotografias de telas de Vieira da Silva ao seu amigo e também pintor Torres Garcia. O artigo que este escreve na revista Alfar é de tal forma favorável a Vieira da Silva que daí resulta  um novo ânimo.

As saudades de Paris fazem-na criar as célebres obras Estação do Metro* (1940) e Partida de Xadrez* (1943) consideradas verdadeiras obras-primas.

Em 1945 a guerra acaba. Ficará ainda no Brasil algum tempo. Dois anos mais tarde o próprio governador de Minas Gerais convida o casal a expor em Belo Horizonte. Enquanto isso, Jeanne Bucher organiza em Nova York a primeira exposição individual de Vieira da Silva.

clip_image016É agora tempo de regressar a França. Arpad irá mais tarde pois tem ainda o seu curso para terminar.

Ao voltar para Paris em 1947, Vieira da Silva vê a sua reputação aumentar. Inicia um período fundamental com os trabalhos A Biblioteca* (1949) e Gare Saint-Lazare (1949). O estado Francês sabe  apreciar o seu mérito e  pela primeira vez adquire uma obra sua,  situação que irá ocorrer mais vezes.

As exposições individuais sucedem-se – Londres, Nova York, Basileia, Lille, Genebra. É reconhecida internacionalmente, foi neste período que foi considerada como uma das principais figuras do abstraccionismo lírico da Escola de Paris.

Em obras como A Batalha dos Vermelhos e dos Azuis* (1953) e Composição 55* (1955), os espaços são organizados, mantêm-se as perspectivas labirínticas e repetições minuciosas.

Arpad Szenes e Vieira da Silva conviveram e apoiaram toda uma geração de artistas portugueses que, bolseiros da Fundação Calouste Gulbenkian, se instalaram em Paris a partir da década de cinquenta. Foi o caso de Manuel Cargaleiro, Costa Pinheiro, Eduardo Luís e dos artistas Gonçalo Duarte, José Escada, Lourdes Castro, René Bértholo e João Vieira, que nos finais da década constituíram o Grupo KWY, activo em Paris até ao início da década seguinte.

Em 1956, o historiador Walter Zanini escreveu que “o primeiro contato dos olhos com a pintura de Maria Helena  Vieira da Silva (1908-1992) é ‘um choque desconcertante’ – não importa a distância de tempo, a constatação é precisa.

Nesse ano recebeu a nacionalidade francesa. O próprio Estado francês o decretou. É tempo agora de possuir melhores condições para poder fazer o seu trabalho. Adquire um terreno na Rue de l’Abbé Carton onde o arquitecto Johannet lhe projecta uma casa em que terá o seu próprio ateliê. No final da década de 50 Vieira da Silva dedicou-se quase exclusivamente à gravura para a ilustração do livro Líndépendense lointene de René Char. Recebe o grau de Chevalier de L’Orde des Arts et des Lettres do estado francês em 1960.

O prémio da Bienal de São Paulo no ano de 1962 vem coroar um trabalho seguido atentamente pelo meio cultural português e Brasileiro.

Em 1963 é a vez de ser atribuído o grau de Comendador atribuído pelo estado francês, depois em 1964 realiza o seu primeiro vitral. Em 1965, é-lhe feita a encomenda de 8 vitrais para a Igreja de Saint Jacques, nos quais irá trabalhar durante algum tempo.

Na década de 60 destacam-se as obras O Verão (1961), Biblioteca* (1966) e Maio de 68 (1968). Após da revolução de 1974 que depôs a ditadura em Portugal, tornou-se mais intensa a relação de Vieira da silva e de Arpard Szenes com o nosso país, pois Maria Helena não fica indiferente aos acontecimentos que ocorrem na sua Pátria.

No ano de 1975 faz dois cartazes sobre a revolução, que mais uma vez a Função Gulbenkian se encarregará de editar.

Os trabalhos da pintora são cada vez mais importantes. Muitos são aqueles que a admiram. Da década de 70 ficaram telas como New Amsterdam I e II (1970), as Três Janelas* (1973) Biblioteca em Fogo (1974) e Arcanne (1978).

Finalmente chegava a vez de fazer uma encomenda para Portugal e em 1983 aceita o convite para realizar a decoração de uma nova estação do Metro de Lisboa, a estação da Cidade Universitária.

Arpad Szenes não assistirá à inauguração, morre nos princípios de 1985. A estação só será inaugurada 3 anos mais tarde.

A perda do companheiro de tantos anos afecta naturalmente a sua pintura. A cor altera-se, é outra forma de luminosidade. É no ano seguinte que pinta O Fim do Mundo (1986) e Saída Luminosa* (1986)

Vieira da Silva tem ainda tempo para ver a Fundação com seu nome e do seu marido ser criada em Lisboa no mesmo ano em que é operada ao coração -1990.

No ano seguinte o Estado francês demonstra mais uma vez o apreço em que a tem ao lhe atribuir  o grau de Oficial da Legião de Honra.

Em Junho de 1988 a Fundação Caloute Gulbenkian, em colaboração com o Centro Nacional de artes Plásticas francês, inaugurou uma exposição antológica da sua obra, e o governo português prestou-lhe nova homenagem, atribuindo-lhe a Grã Cruz da Ordem da Liberdade.

clip_image030A Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva foi criada a 10 de Maio de 1990, e tem como primordial objectivo promover a divulgação e o estudo da obra do casal. A Fundação gere um museu destinado a expor as obras de Arpad Szenes e de Vieira da Silva, tal como de outros artistas contemporâneos. Este património veio para Portugal em função de um acordo estabelecido entre o Estado Francês e o Estado Português

Em 1992 pinta uma sucessão de têmperas, com o título “Luta com um anjo”. É o prenúncio do fim. Vieira da Silva não é dada a grandes místicas, mas há sempre interrogações que se colocam:

“Às vezes, pelo caminho da arte, experimento súbitas, mas fugazes iluminações e então sinto por momentos uma confiança total, que está além da razão. Algumas pessoas entendidas que estudaram essas questões dizem-me que a mística explica tudo. Então é preciso dizer que não sou suficientemente mística. E continuo a acreditar que só a morte me dará a explicação que não consigo encontrar”. - Maria Helena da Silva (Jean-Luc Daval, 1994, p.93)

A 6 de Março de 1992, Vieira da Silva morre em Paris.

Para finalizar e para reflexão algumas citações de Vieira da silva e do seu marido Arpad Szenes, citações no site da galeria Michelle Champetier – www.mchampetier.com

“Eu vim para Paris por razões de ordem intelectual, sem qualquer razão prática … o porto de Lisboa uma vez que se começou a descobrir o mundo e, em seguida, preenchê-lo. Em Paris, descobrimos no local em todos os momentos, por meio espiritual “. – Vieira da Silva

“Eu quero ver o mundo de forma diferente.” – Vieira da Silva

Ela deveria viver muito tempo para ter tempo para fazer um monte de patetices e algumas obras-primas. “- Arpad Szenes

Depois de inventariado o trabalho de uma vida sobre Vieira da Silva, fica-se com a sensação que realmente os Portugueses ao contrário dos franceses não dão o valor devido à obra da Artista e a ela própria.

A National of Woman in the Arts no seu sitio na internet considera Vieira da Silva a maior artista contemporânea em Portugal www.nmwa.org, mas por cá não se dá conta disso. Numa das minhas pesquisas para saber por exemplo quanto vale em termos monetários as obras da artista, deparei-me com a tela a praia* à venda na Galeria Atfinding em http://www.artfinding.com por uns meros 340.000€

Apesar de ter contactado com grandes mestres da pintura e dos seus respectivos movimentos artísticos do séc. XX (cubismo com Picasso, dadaismo com Duchamps, futurismo com Braque, Fauvismo com Matisse, expressionismo com Paul Klee) , e mesmo sofrendo as influências destes, nunca ficou presa a nenhum movimento, preferindo continuar sempre em busca de uma forma de ver e consequentemente nunca assumindo um estilo único.

Vieira da silva não se ficou apenas pela pintura em tela, fez ilustrações para livros, projectos para tapeçarias, decoração de montras, pintura em cerâmica e azulejos, vitral, cartazes, gravuras e ainda a decoração em azulejo da estação de metro da Cidade Universitária em Lisboa.

*- Referência a obras incluídas na apresentação em Power Point anexo a este trabalho.

Bibliografia

  • Antoine Bourdelle, Laure Dalon, Cours & leçons à l’Académie de la Grande Chaumière, 1909-1929, Paris : Paris-Musées : Ed. des Cendres, 2008, ISBN 9782759600342
  • Benoît Noël, Jean Hournon, Parisiana : la capitale des peintres au XIXe siècle, Paris : Les Presses franciliennes, 2006. Páginas 134-137. ISBN 9782952721400

· Henri Matisse. In Diciopédia X [DVD-ROM]. Porto : Porto Editora, 2006. ISBN: 978-972-0-65262-1

· Vieira da Silva. In Diciopédia X [DVD-ROM]. Porto : Porto Editora, 2006. ISBN: 978-972-0-65262-1

· Arpad Szenes. In Diciopédia X [DVD-ROM]. Porto : Porto Editora, 2006. ISBN: 978-972-0-65262-1

· 4.bp.blogspot.com/

· www.mchampetier.com

· http://www.camjap.gulbenkian.pt/

· http://cvc.instituto-camoes.pt

· www.mulheres-ps20.ipp.pt/VieiradaSilva.htm

· http://culturalmente.mja.googlepages.com/home

· www.nmwa.org

· http://www.artfinding.com/Artwork/Paintings/VIEIRA-DA-SILVA-Maria-Helena

Conclusão

A obra de Vieira da Silva apesar de não pertencer a um estilo único, pode considerar-se lírica abstracta.

A abstracção surge muitas vezes a partir da figuração.

A sua obra apresenta três géneros: naturezas mortas, figuras e paisagens com a sua temática a variar ao longo da vida e relacionando-se com o fluir dos momentos socioculturais e históricos que atravessou.

Na sua obra os elementos visuais usados foram:

· As linhas de tensão

· Linhas em quadrícula

· Redes, malhas, teias, quadriculados, rendilhado geométrico, grelhas obedecendo geralmente a uma perspectiva

· Labirintos

· Utilização dos conceitos de equilíbrio e desequilíbrio

· O espaço

· A profundidade

· Tridimensionalidade

· Pontos de fuga

· Diversos pontos de vista em simultâneo

· Grafitos e grafismos

· Espaços cromáticos

· Desfragmentação, desmultiplicação, desconstrução

· Densidade de grafismos, acentuando a complexidade da pintura

Os temas mais frequentes na obra da artista foram:

· As cidades reais e as inventadas

· As bibliotecas

· Os tabuleiros de xadrez

· Os portos, os diques

· O espaço onde pintava : o seu atelier

Enorme, a obra de Vieira da Silva que percorreu um séc. XX de inúmeros movimentos artísticos e que conseguiu com um estilo próprio, o respeito e reconhecimento internacional da sua obra.

Motivo de orgulho para Portugal, e sem ressentimentos pelos anos vividos fora do país, pois afinal o país foi o maior culpado para que tal acontecesse.

A sua obra deveria ser dada a conhecer com mais intensidade na comunidade escolar nacional, pois é com os ensinamentos e as obras deixadas pelas pessoas GRANDES que um país encontra as suas motivações para progredir.

PS – O aspecto da obra que mais me surpreendeu foi a utilização de técnicas nas telas da década de 30 nomeadamente em Quarto dos azulejos de 1935 e a Máquina Óptica de 1937 que me fizeram lembrar a OP Art de Vasarely que apareceria 30 anos depois.

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Rui Bexiga – Dez 2009

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  1. #1 by Eduardo Silva on 19/05/2014 - 4:24 pm

    Quando procuramos uma coisa (neste caso pretendia saber mais sobre Maria Helena Vieira da Silva) e encontramos um trabalho de um amigo nosso, isso é simplesmente fantástico! Obrigado Rui.

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